A ditadura da dopamina e a perseguição apocalíptica da felicidade
- Thiago Lira

- 15 de dez. de 2025
- 2 min de leitura
Atualizado: 17 de dez. de 2025

Essa é a premissa da fascinante série "Pluribus"(2025): estamos caminhando para um mundo onde a Inteligência Artificial (IA) se torna o oráculo, e a busca incessante por "bem-estar" imediato é a nova religião. Essa é a Ditadura da Dopamina: um ciclo viciante de likes, notificações e gratificações instantâneas que nos promete um estado de satisfação perpétua, uma espécie de Pluribus digital - "muitos em um", uma felicidade pasteurizada para as massas.
O fascínio pela IA reside, em parte, no desejo de delegar o caos, de construir um mundo previsível, sem atrito e, portanto, sem sofrimento. Um mundo sem conflitos não é um paraíso; é uma câmara de eco da pulsão de morte.
A distopia sem conflitos
Mas o que acontece quando a perseguição à felicidade a qualquer custo elimina o conflito?
Para a Psicanálise, a natureza humana é inerentemente marcada pela ambivalência (amor e ódio), pelo desejo e, crucialmente, pelo conflito (entre Ego, Id e Superego). O conflito não é uma falha; é o motor da sublimação, do pensamento crítico e, paradoxalmente, da nossa capacidade de amar e criar.
Um mundo sem conflitos não é um paraíso; é uma câmara de eco da pulsão de morte. Um sistema que elimina o conflito elimina a própria vida psíquica. O resultado é um ambiente com ares de fascismo suavizado, onde só é permitido a uniformidade do contentamento coletivo. E quem não se encaixa neste imperativo de felicidade e produtividade constante, quem ousa sentir dor, tédio ou dissenso, é retaliado com isolamento social. O algoritmo nos empurra para a margem da sociedade digital.
A Necessidade do apocalipse pessoal
A palavra apocalipse significa "revelação" ou "desvelamento". Num mundo que suprime o conflito interno e externo, as pessoas negam a própria sombra, o lado reprimido da psique. Se o nosso self não puder se debater, se não pudermos nos desesperar e enfrentar a angústia da nossa própria finitude e nossas contradições, ficamos presos em uma prisão dourada de superficialidade.
A verdadeira felicidade exige que suportemos o conflito. A verdadeira liberdade está em reconhecer a sombra, a dor e o caos da natureza humana, em vez de terceirizá-los para um algoritmo ou uma dose constante de dopamina.
A sabedoria está em reconhecer nossa finitude, acolher nossos infortúnios e as angústias diante das incertezas e falta de controle sobre as vicissitudes da vida. Negar-se das experiências de sofrimento é negar nossa própria humanidade.










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