O feminino e a melancolia em "Retrato de uma jovem em chamas"
- Thiago Lira

- 18 de ago. de 2025
- 3 min de leitura

O que acontece quando a pintura se torna a única forma de expressar um desejo que não pode ser dito? Em "Retrato de uma jovem em chamas", a diretora constrói um universo em que a presença e a ausência se manifestam de maneira sutil e poderosa.
O filme explora a melancolia como um sentimento presente na vida de mulheres que, ao longo de séculos, foram silenciadas. A pintura, um objeto tão associado à representação da feminilidade, assume uma função terapêutica para as personagens. Para Marianne, a arte é uma forma de entender e processar o olhar de Heloïse. Ela tenta capturar a essência da modelo, que se manifesta em sua recusa, resistência e rebeldia. Já para Heloïse, ser retratada é um confronto com sua própria imagem, o que a leva a questionar sua identidade e seu destino.
No filme, a solidão feminina é um tema central. As mulheres, confinadas numa ilha, vivem em um microcosmo onde a ausência de homens se manifesta na liberdade de ser, pensar e agir. A falta do olhar masculino e do poder que ele representa permite que elas explorem suas paixões e desejos, mas também as confronta com a necessidade de se encontrarem e de se reconhecerem.
O filme é um convite a refletir sobre a força da arte, a beleza da melancolia e a potência do feminino. A experiência de "Retrato de uma jovem em chamas" é como um encontro com a própria alma, que nos leva a um estado de contemplação silenciosa. É uma ode ao desejo e ao amor lésbico, mas não o faz de forma explícita ou sexualizada. Aqui o amor é abordado de modo sutil, e resiste às opressões de gênero e convenções moralistas do século XVIII.
A arte é o motor narrativo que acompanha a construção artesanal desse relacionamento: conforme a pintura é refeita e evolui para o término da obra, ela culmina na separação das personagens. A arte é um recurso magistral, inscrição de memória e repetição: amor e perda não desaparecem, se transformam numa marca artística e psíquica mediante a sublimação.
A diretora constrói a intimidade das personagens de uma maneira muito particular, explorando a tensão e a sensualidade do olhar, do toque e da presença. Torcemos para que o retrato permaneça inacabado, para cultivar o amor entre elas.
A conexão entre Marianne e Heloïse surge da observação e da escuta mútua. A proibição do olhar direto, no início do filme, transforma o ato de ver no ato de desejar. A lesbianidade, nesse contexto, é construída como um processo de reconhecimento do outro, de uma sensibilidade compartilhada que transcende a necessidade da palavra.
Nesse sentido, a relação sáfica das personagens foge do clichê e do melodrama. O filme não se trata de um "caso de amor proibido", mas sim da construção de uma realidade alternativa, de um espaço-tempo onde o amor lésbico é possível, livre de julgamentos e de normatividades.
Em suma, a lesbianidade em "Retrato de uma jovem em chamas" é retratada como algo natural, belo e poético. É a celebração do amor entre mulheres, que se manifesta em cada gesto, em cada olhar e em cada evasiva.
Ao revisitar o mito de Orfeu e de Eurídice, a diretora Céline Sciamma nos convida a questionar a tradição e a reescrever as narrativas que nos definem. O filme nos mostra que, às vezes, o amor verdadeiro não é sobre possuir alguém concreto, mas sobre uma lembrança pungente, que sobrevive no plano da memória e da sublimação, eternizado na criação artística.










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