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Sobre o sentido de "recordar, repetir e elaborar"

  • Foto do escritor: Thiago  Lira
    Thiago Lira
  • 23 de set. de 2024
  • 3 min de leitura

A tríade "recordar, repetir e elaborar" é o que consiste o objetivo de toda análise, a própria técnica terapêutica. Vejamos de uma maneira concisa o que isso significa. 


Podemos reconhecer que esse processo é praticamente um mantra da psicanálise, sendo de suma importância na medida em que opera, de forma onisciente e onipresente, o empenho de detectar os sintomas que acometem o sujeito oriundos da psicopatologia e seus fundamentos. Não só identificando, em perspectiva retroativa, quais os sintomas manifestos e latentes que acarretam sofrimento ao indivíduo, como também, prospectivamente, como esses sintomas podem ser eliminados. Desta maneira, o sujeito realiza uma reconfiguração com a qual supera a causa do mal-estar que é duplo: consciente e inconsciente, isto é, que leva o indivíduo a adotar modos de subjetivação prejudiciais. 


Por isso, é o processo analítico se constitui pelos seguintes passos, conforme as indicações metodológicas de Freud*: 


1) Rememoração. Porque para compreender a natureza do sofrimento é necessário rememorar o que pode tê-lo produzido e como ele apareceu, segundo uma ótica retrospectiva. Esse processo contribui para demarcar o surgimento do sintoma. O processo de recordar remonta ao passado do paciente, que se indaga sobre quando apareceu os sintomas que lhe provocam sofrimento. Se o processo de recordar for muito penoso, é porque está ligado às resistências que atuam e tornam a rememoração dolorosa, já que é a busca incessante no inconsciente dos elementos elucidativos que precisam vir à tona ao estado consciente. Esse processo pode ser evidenciado quando o sujeito atenta para os sonhos, os chistes, os atos falhos etc. Tudo aquilo que remete ao inconsciente e for passível de elaboração consciente. Inclusive, a simples tomada de consciência de que há uma resistência operando no tratamento analítico e impedindo a rememoração já é um fator preponderante que pode facilitar o curso de recordar tudo que é inconsciente, desordenado, complexo, nonsense etc.


2) Repetição. A fase que remete ao momento presente e que perdura por maior tempo na análise, da qual o sujeito deve recapitular o passo anterior quantas vezes for preciso a fim de cumprir uma elucubração de sua sintomatologia, e assim vencer suas resistências. Enquanto o sujeito não tomar consciência daquilo que lhe provoca sofrimento, em virtude de uma resistência por exemplo, ele tende a repositar as mesmas coisas num tempo indefinido, repetição que parece sem sentido mas que na verdade diz respeito à manifestação de seus sintomas. Essa etapa desempenha o ínterim fundamental que é permanente no processo analítico, na tentativa de investigar no passado tudo que ainda reverbera no presente e apontando para uma possível cura futura do mal-estar, na medida em que ao tornar consciente os estados de sofrimento e suas respectivas causas, o paciente alivia-se e se reconcilia com o sintoma. Por isso, a etapa da repetição é premissa imprescindível para a fase subsequente, a da elaboração. Pois apesar de persistir o sintoma repetidamente, ele pode aparecer de uma maneira distinta em relação ao passado, sendo atribuído um peso diverso na vida atual do paciente. Nesse sentido, o sujeito ao mesmo tempo em que opera um olhar retroativo para o passado, também positiva esse mesmo olhar para o presente, de modo que esse movimento dialético entre passado-presente culmina na possibilidade de elaboração e efetivação da cura no futuro.


3) Elaboração. As condições de possibilidade da cura só se dão quando a análise perpassa entre passado, presente e futuro, em que o sujeito se dá conta de seu sintoma originário, de como este mesmo sintoma se presentifica ao longo de sua vida e como ele se mantém ou se modifica na fase ulterior. O ato de elaborar todo o percalço sobre sua condição psíquica é precisamente o ápice da terapêutica, que permite suplantar o sintoma e, com isso, reconhecer o manejo sadio em relação a ele, seja conscientemente evitando sua manifestação sintomática, seja inconscientemente quando o sintoma é incorporado como parte da personalidade do sujeito, traço do qual não se pode abdicar, mas "fazer as pazes" com a neurose, por assim dizer.



*Essas "orientações metodológicas" de Freud podem ser conferidas no vol. 10, publicado nas Obras Completas (2010) pela Cia. das Letras. O ensaio Recordar, repetir e elaborar (de 1914) se encontra compilado nos artigos sobre técnica psicanalítica. 

Para mais detalhes, confira o vídeo do psicanalista Christian Dunker que traz uma boa síntese sobre o ternário "recordar, repetir e elaborar":




 
 
 

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Thiago Lira
Psicanalista

Clínica Casa da Árvore
Rua Nevinha Cavalcante 122, Miramar
João Pessoa/Paraíba

psithiagolira@gmail.com
(83) 98162-8380

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